Você já imaginou como eram os cuidados com a beleza há milhares de anos, em uma das civilizações mais fascinantes da história? No Egito Antigo, a maquiagem não era apenas uma questão estética, era um verdadeiro ritual de proteção, saúde e espiritualidade. Por isso, neste artigo, vamos mergulhar no universo dos cosméticos egípcios, revelando seus ingredientes, suas funções simbólicas e o legado que ainda influencia a cosmética moderna. Prepare-se para uma viagem no tempo que vai transformar a sua visão sobre beleza e cuidados pessoais!
OS Cuidados com a Beleza no Antigo Egito: Entre Vaidade, Saúde e Espiritualidade
No Antigo Egito, os cuidados com a aparência faziam parte do cotidiano, combinando vaidade, aspectos religiosos e proteção contra o calor intenso e doenças. Cosméticos e perfumes integravam a rotina de higiene e saúde dos egípcios, que, antes da invenção do sabão, usavam óleos para limpar e manter a pele macia e limpa.
Pomadas perfumadas, armazenadas em recipientes de cerâmica, pedra, vidro e outros materiais, funcionavam como loções hidratantes atuais, ajudando a suavizar a pele e a disfarçar odores corporais. As fragrâncias eram obtidas de flores, folhas, cascas, ervas e especiarias, moídas até virar pasta e misturadas a gorduras ou óleos, formando cremes aromáticos.
Ervas e óleos como tomilho, manjerona, camomila, lavanda, aloe vera, azeite de oliva e óleo de amêndoa eram base dos perfumes. Ingredientes importados, como mirra e bálsamo, conferiam luxo aos perfumes dos mais ricos. O Egito Antigo era reconhecido como um importante centro de produção perfumista, com fórmulas documentadas em papiros, pois para os egípcios, perfumes tinham valor social e espiritual.
Na saúde bucal, usavam pastas feitas com natrão (carbonato e bicarbonato de sódio), sal, pimenta, hortelã e mirra para limpar os dentes, funcionando como uma versão primitiva do creme dental. O natrão também servia como enxaguante bucal. Além disso, mastigavam resinas aromáticas para refrescar o hálito e prevenir doenças.
Papiros médicos e achados arqueológicos revelam que os egípcios preparavam misturas para proteger a pele do clima árido, prevenir rugas, manchas e tratar ferimentos. Por exemplo, o Papiro de Edwin Smith (nomeado em homenagem ao americano que o adquiriu em 1862) descreve um esfoliante feito com mel, natrão vermelho e sal do norte, enquanto o Papiro de Ebers recomenda óleo de moringa e sementes de rícino, para massagem diária da pele.
Para hidratar e purificar a pele, usavam gordura animal, óleo vegetal, argila, cera de abelhas, mel, leite e sais do Nilo. Mulheres praticavam esfoliação, aplicavam máscaras e até depilação com misturas naturais, técnica que inspira métodos atuais. Pinças de metal ou bronze eram comuns em kits cosméticos para remoção de pelos.
Após essa preparação podiam embelezar seus rostos e corpos com maquiagem. Mas a maquiagem não era exclusividade feminina: homens e mulheres, de todas as classes sociais, usavam cosméticos não apenas por vaidade, mas por crenças religiosas e proteção espiritual. A limpeza e beleza conectavam as pessoas ao divino e afastavam o mal. O ritual de beleza nos palácios reais podia durar horas, sendo essencial para faraós e membros da corte.
Além da vida, os egípcios cuidavam da aparência para a vida após a morte, pois acreditavam que o falecido se tornaria um ser divino. Por isso, objetos pessoais como pentes, maquiagens, unguentos e joias eram colocados em túmulos, especialmente dos mais ricos, fornecendo aos arqueólogos valiosos insights sobre suas práticas culturais e religiosas. Com base nessas evidências, pode-se perceber que havia uma clara ligação entre cosméticos e o divino.
Cosméticos também tinham papel nos templos, usados para adornar estátuas de deuses com símbolos de fertilidade e rejuvenescimento, ou continham pigmentos derivados de animais, incorporados à maquiagem para dar “poderes” a quem os usava.
O “olho de Hórus”, delineado com maquiagem preta, era um amuleto sagrado que protegia a saúde, fertilidade e afastava energias negativas. Assim, faraós e membros da corte delineavam os olhos com preto, em um traço alongado, símbolo de clarividência e conexão com o divino.
Embora os primeiros registros do uso de pós escuros como fuligem e minerais para delinear os olhos tenha começado entre sumérios, babilônios e assírios, foram os egípcios que desenvolveram uma fórmula mais refinada, chamada mesdemet. Feita principalmente de galena (sulfeto de chumbo), fuligem e cobre moídos eram misturados com óleo ou gordura animal para criar um pigmento negro ou cinza-escuro usado para delinear os olhos. Usavam também pigmentos verdes de malaquita para sombrear as pálpebras.
Mais tarde, os egípcios criaram o kohl, que se espalhou para várias civilizações e é o ancestral do delineador moderno. Seu uso é registrado desde pelo menos 5000 a.C.
O kohl podia conter antimônio, óxido de manganês, amêndoas torradas, chumbo, óxido negro de cobre, carvão, ocre marrom, óxido de ferro, malaquita, crisocola cinza e outros, que eram moídos em uma paleta até virar pó. Análises químicas modernas mostram que continha ingredientes orgânicos de origem vegetal e animal, e também compostos sintéticos como laurionita e fosgenita, indicando que esses ingredientes foram sintetizados no Egito Antigo.
Isso significa que a química úmida – que é o conhecimento de uma variedade de técnicas como a destilação, filtragem, decantação – já era praticada no Egito a partir de 2000 a.C. Então, todas essas descobertas mostram que o Kohl egípcio podia ser fabricado com diferentes ingredientes.
Os egípcios usavam o Kohl ou um preparado negro feito de galena para escurecer os cílios, alongar os olhos e definir as sobrancelhas. E o delineado se estendia em um arabesco que se projetava em direção à face para proteger os olhos – que eram considerados “espelhos da alma” – contra espíritos malignos.
Além do efeito estético, o kohl protegia os olhos do sol forte, tinha ação antibacteriana e afastava insetos, funcionando como uma espécie de “óculos escuros” da antiguidade. Alguns estudiosos acreditam que a pintura ao redor dos olhos foi inspirada na natureza, como nos guepardos e gatos, que têm marcações semelhantes.
Os cosméticos eram guardados com cuidado em potes especiais feitos de osso, marfim, madeira ou vidro com diferentes formatos. A distinção entre ricos e pobres no Egito antigo não estava no uso da maquiagem, mas no luxo dos recipientes. Os potes e aplicadores cosméticos da elite eram feitos com materiais luxuosos, esculpidos e adornados com joias, feitos de marfim ou outros materiais preciosos.
Inicialmente, colheres eram usadas para extrair o Kohl em pó, que era misturado com gordura ou óleo para formar uma pasta e depois aplicado com uma vareta fina. Mais tarde, desenvolveram bastões para a aplicação de maquiagem nos olhos. Gordura e minerais eram misturados até formar uma pasta e depois modelados em bastões cilíndricos, que facilitava o uso diário.
A coleção cosmética de um antigo egípcio podia incluir recipientes para kohl, pedras de moagem, aplicadores finos de maquiagem, potes de alabastro para pomadas, uma colher de maquiagem, espelhos de metal polido, pinça e muito mais, todos muito semelhantes aos acessórios cosméticos que ainda usamos hoje.
Nos lábios, usavam pigmentos vermelhos extraídos do ocre e de minerais, aplicados com pincéis feitos de fibras vegetais ou instrumentos de madeira. O tom vermelho era símbolo de beleza, embora alguns pigmentos tóxicos tenham causado doenças, ficando conhecidos como “o beijo da morte”. As bochechas eram tingidas com ocre vermelho misturado a óleos vegetais, enquanto unhas das mãos, palmas e solas dos pés eram pintadas com hena.
O pó branco também era importante pelo seu profundo significado estético, cultural e religioso. Embora os egípcios não buscassem uma pele extremamente pálida como ideal de beleza, como ocorreria mais tarde na Grécia e Roma Antiga, a maquiagem branca era associada a feminilidade refinada, a nobreza e a renovação da beleza na vida após a morte. Ingredientes como carbonato de chumbo eram usados para suavizar a pele, afastar doenças e proteger contra o sol, conferindo status e pureza espiritual.
Muitos cosméticos usados no Antigo Egito eram perfumados com óleos aromáticos, o que evidencia o refinamento e a sofisticação dessa civilização. Diversos papiros médicos encontrados em escavações registram receitas voltadas para o cuidado com a pele e os cabelos: com pomadas para fortalecer o couro cabeludo, loções contra a calvície, tinturas para escurecer os fios brancos, cremes hidratantes, fixadores e até fórmulas para amenizar rugas e melhorar a aparência facial, incluindo procedimentos que podem ser comparados ao peeling e à dermoabrasão modernos.
Além da beleza, os egípcios cuidavam dos cabelos com mel e produtos vegetais, usavam perucas feitas de linho, lã, cabelo humano tingido com hena e adornado com ouro e marfim. As perucas eram símbolo de status. Extensões capilares, tranças e cachos, datados de cerca de 3400 a.C., foram encontrados em escavações, confirmando essas práticas. Os homens além das perucas, usavam barbas postiças que indicavam sua posição social; curta para as classes altas, longas para os reis, longa com a ponta dobrada para os deuses e faraós.
Para estilizar os cabelos, aplicavam argila com água para criar ondas temporárias e usavam cones de cera perfumada que derretiam lentamente, liberando fragrâncias durante festas.
Com o tempo e as influências externas, especialmente a partir da dominação romana (51 a.C.), os estilos de maquiagem e penteados mudaram, mas figuras como a rainha Cleópatra mantiveram o estilo egípcio, combinando vaidade e profundo conhecimento dos ingredientes cosméticos.
E de acordo com a história, foi exatamente por sua vaidade e perspicaz inteligência que a tornaram a mais lembrada e comentada das rainhas do Egito.
Referências:
The Metropolitan Museum of Art. Collection
The British Museum. Collection
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Riesmeier, M., Keute, J., Veall, MA. et al. Recipes of Ancient Egyptian kohls more diverse than previously thought. Sci Rep 12, 5932 (2022).
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Vita, Ana Carlota R. História da Maquiagem, da Cosmética e do Penteado: Em Busca da Perfeição. 1. ed. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2009.
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